Publié par : manuelsds | 7 juillet 2011

Entrevista com Paul De Grauwe Agências de notação “têm uma agenda escondida hostil ao que se passa na Europa”

07.07.2011 – 07:55 Por Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas

Paul De Grauwe, professor de Economia da Universidade de Lovaina e analista do Centre for European Policy Studies, acusa as agências de rating de terem « uma agenda escondida hostil ».

De Grauwe fala em "grande inépcia" na gestão europeia do caso grego

De Grauwe fala em « grande inépcia » na gestão europeia do caso grego

 (Nuno Ferreira Santos (arquivo))

 

O que é que está por detrás da degradação da notação financeira de Portugal quando o Governo é maioritário e está determinado a cumprir o programa de ajustamento negociado com a zona euro e o FMI?
É uma decisão muito infeliz, porque é preciso dar uma oportunidade ao Governo português para executar o seu programa, e as agências, de forma irresponsável, tornam tudo mais difícil para Portugal. Uma das razões é que se tratam de agências americanas com uma agenda escondida hostil ao que se passa na Europa. Mas também é verdade que estas agências funcionam de forma muito mecânica, os modelos que usam são muito primitivos, indignos de estudantes do 1.º ano de Economia.

Mas por que é que a Moody »s faz uma analogia com o que se passa na Grécia?
Tem havido uma grande inépcia na forma como o caso grego tem sido gerido pelos líderes europeus, que merecem tantas críticas como as agências de notação. Os lideres têm gerido esta crise de uma maneira inacreditável, com lutas na praça pública sobre como fazer e impondo condições excessivamente duras.

Por que é que as agências têm tanto poder?
Porque as instituições europeias e o Banco Central Europeu (BCE) lhes deram. O BCE baseia as suas decisões sobre o fornecimento de liquidez aos bancos comerciais na notação financeira das agências [sobre a dívida soberana dos Estados]. Ou seja: estas agências privadas americanas estão, de facto, a decidir o que o BCE pode ou não fazer; é inaceitável. Imagina-se a Reserva Federal americana a fazer uma coisa destas? Mas o BCE pode muito facilmente reduzir o poder das agências de notação declarando de forma clara que deixará de se basear nas suas notações. Se não o fizer, continuará a dar um poder enorme a gente irresponsável que já fez erros incríveis no passado.

Concorda com a participação do sector privado na nova ajuda à Grécia?
Há várias formas de o fazer, mas no caso da Grécia, sim, penso que é preciso algum tipo de reestruturação da dívida. A forma de o fazer parece-me que seria o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) emitir títulos de dívida e trocá-los com os títulos gregos, com uma redução do valor, obrigando os bancos a anularem parte dos activos e aliviar a dívida grega. Alguns destes bancos têm sido especuladores, por isso têm de ser castigados. Para a Grécia é inevitável.

E em Portugal?
Não, penso que não. Portugal está numa situação muito diferente da Grécia, vai ter um processo de ajustamento muito duro, mas é diferente, basta ver o nível das respectivas dívidas.

Entre os modelos que estão em discussão em França e na Alemanha sobre a participação dos privados na renovação da dívida grega, há algum que considera aceitável e próximo do seu modelo de troca de títulos com o FEEF?
Não, acho que não, porque há um desejo muito grande de preservar o balanço dos bancos franceses e alemães. E isso está a influenciar a discussão. Não nos podemos esquecer que alguns destes bancos têm sido especuladores, têm comprado com desconto e esperam agora recuperar o valor total, em pura especulação. Por isso têm de ser castigados, aceitando uma redução do valor (haircut). Não têm de ser os contribuintes a ser castigados pela especulação dos bancos.

A zona euro continua assim muito longe de ter resolvido de uma vez por todas a crise da dívida. Será que vai ser preciso que as coisas continuem a piorar até que possam, talvez, começar a melhorar?
Não estou optimista. Não estamos em sítio nenhum. O FEEF e o Mecanismo Europeu de Estabilidade [MEE, o novo instrumento de socorro aos países em dificuldades que vai vigorar em 2013] também não são as instituições certas: se todos os Estados têm um poder de veto, que credibilidade é que estas instituições poderão ter? A extrema-direita holandesa pode interferir e arruinar por completo os mecanismos. Por isso, estes mecanismos não têm credibilidade, nunca conseguirão pacificar os mercados. A solução é ceder alguma soberania, mas [os governos] não o querem fazer.

Então é o fim do euro, mais tarde ou mais cedo?
Temo cada vez mais que isso aconteça. Espero que não, ainda penso que tudo isto se pode resolver, mas a forma como as coisas se estão a desenrolar, e quando olhamos para a forma como têm evoluído, só podemos concluir que nada melhorou, tudo piorou por causa da dimensão política da crise. É mais uma crise política do que financeira, por causa da falta de vontade dos políticos de conceder assistência financeira [aos parceiros].

Sendo assim, pensa que é inevitável que países como Portugal ou a Grécia tenham de sair, um dia, do euro? Não há um limite à austeridade que se pode exigir aos cidadãos?
Claro, o modelo que começou a ser seguido na Grécia está claramente errado. A ideia do Norte da Europa é que temos de punir [estes países] porque foram pecadores, punir com uma grande austeridade, mesmo se sabemos que a austeridade num país em recessão não funciona. Isto é sabido desde a Grande Depressão [dos anos 1930], mas isso não foi tido em conta porque as pessoas têm sido muito influenciadas pelas emoções.
E depois aplica-se o mesmo modelo a todos os outros países, Irlanda, Portugal. Austeridade e mais austeridade, mesmo se isso leva ao colapso do crescimento económico, o que consequentemente, não reduz o nível da dívida, pelo contrário. Quando se olha para o que aconteceu na Grécia, vê-se que a dívida face ao PIB aumentou, porque o PIB caiu. E depois vêm as agências de notação dizer “ah, isto não funciona, logo, baixamos a notação” e entramos num ciclo vicioso muito pernicioso e negativo. E os governo continuam a insistir no mesmo, em vez de tentar resolver o problema.

Nessas condições, Portugal e Grécia podem permanecer no euro?
Se os governos persistirem neste caminho, a certa altura, alguns países dirão “já chega”, e preferirão sair. É uma pena se isso acontecer.

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